DISCRIMINAÇÃO
Estudo do Ipea aponta parcela menos favorecida no mercado de trabalho, independente de escolaridade

Nilciléia, desempregada, acredita que falta de oportunidade profissional está ligada à sua cor
RENÊ DIÓZ
Especial para o DiárioDesempregada há 9 meses, Nilciléia Lemes, de 24 anos, acha que sua foto no currículo tem bastado para que os empregadores lhe recusem oportunidades. Ela possui o ensino médio completo, já foi operadora de caixa, recepcionista e babá. Fora um azar inexplicável, ela diz que não consegue cogitar outro motivo para as portas lhe fecharem a não ser a discriminação por sua raça. Afinal, insistência não tem faltado.
Ontem, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou o estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, cujos dados de 1993 a 2007, baseados na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), dão conta da situação de Nilciléia e das mulheres negras em geral no mercado de trabalho. É dentro deste recorte de gênero e raça que se encontra a maior taxa de desemprego e a menor renda média do país (veja quadro).
O curioso é que a mesma pesquisa aponta que as mulheres, brancas ou negras, estão cada vez mais escolarizadas, superando os homens de ambas as raças. E as negras acompanharam este progresso. De 1996 a 2007, diz o Ipea, elas aumentaram seu tempo de estudo de 5,2 para 7,4 anos. As brancas são as mais escolarizadas, com 9,3.
Enquanto se sustenta com o seguro-desemprego, Cleide Rodrigues Miranda, de 35 anos, está tendo de trabalhar como diarista esporadicamente para poder complementar a renda. Há um mês, ela foi dispensada do trabalho, uma empresa distribuidora de medicamentos que passou por um período de cortes de pessoal. Em sua casa, ela vive com o marido e três filhas e se prepara para “bater perna na rua”, em busca de uma oportunidade. Ela, que possui grande experiência como babá, espera que até a falta de escolarização (ela está concluindo o ensino médio) seja motivo para empregadores recusarem seus serviços, menos a cor de sua pele.
Mas a recusa ou a alegação de que não existem mais vagas disponíveis é uma resposta comum, mesmo para as mulheres com nível universitário. É isso o que assusta a professora Maria Lúcia Muller, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação (Nepre) da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Com a coleta de relatos para pesquisa qualitativa dentro da UFMT, o Nepre constatou que a raça tem sido fator decisivo para empregadores negarem oportunidades, mesmo quando ainda precisam.
Se o próprio Ipea prevê que o Brasil precisará de 87 anos para igualar as rendas de homens e mulheres, Muller acredita que o primeiro a se fazer é equiparar os salários de mulheres negras e brancas, preferidas no mercado mesmo quando não possuem formação tão consolidada. “O que preocupa é como se perpetua o imaginário ruim sobre a mulher negra”, aponta a coordenadora.
Este seria o segmento mais desfavorecido da sociedade no mercado de trabalho, diz a professora, enquanto as mulheres indígenas ainda não começarem a se emancipar com mais destaque. Já a presidente do Instituto de Mulheres Negras de Mato Grosso (Imune), a pedagoga Antonieta Luísa Costa, considera que as mulheres negras são “o segmento que mais avançou”, devido à consolidação das políticas afirmativas. Os movimentos negros, ela assegura, não aceitam o estigma do desfavorecimento social, focando-se na luta pela igualdade racial, mesmo que dados como os do Ipea, sem novidade alguma, traduzam periodicamente em números a injusta realidade das negras brasileiras.
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Muito axé e militância pessoal e obrigado pelos comentários.